o meu colega fernando pessoa
cultivava a heteronimia.
compreendo-o. não é porém
o meu caso.
eu cultivo ser eu, nada mais,
nada menos. partir de mim e
regressar a mim, ou,
como tem acontecido, partir de mim
e não regressar a esse. deixar o mim
de ser o tal. passar o mim a ser
outro. de cada vez que fala o outro
dizer eu. às vezes dizer eu e não saber
qual o mim que fala. eu escolhi
o mais simples: ser,
apenas, quem for.
o meu colega fernando pessoa
escolheu a heteronimia.
será que o compreendo?
Quarta-feira
Sábado
.
poesia sobrevivente 1978/1987
sem título
I
de todos os homens que fui
de todos os destinos
que compuseram o meu destino
a memória de um sonho
fortemente persiste.
II
não é fácil falar do ouro ou
da inexplicada serpente
cuja raiz
toca a solidão de cada homem.
há, nas noites de lua cheia,
há, nas noites de lua cheia,
no verão, nas cidades à beira mar,
na embriagada felicidade alheia,
uma dor, um certo azul, um gume,
que tudo faz por se desatar.
depois penso em ti, leila,
e em ti sílvia e helga e mafalda.
passámos ao lado. a verdade, ei-la:
era um rio que corria sem desaguar
era água que não queria ser mar.
18 DE MARÇO DE 1985
I
desalinhados cabelos
tranquilo rosto
serena bela cabeça
de homem.
o que me dói
por dentro a rói.
II
que fazer agora
quando por dentro
o fogo te consome?
altivo porte
o das águas do teu rosto.
III
dia após dia
noite após noite
me recolhi.
águas semanas meses
não sei quantos.
já podes vir.
IV
a acção das mãos
a finitude das coisas humanas
o amor e o afago
a negra sabedoria
de ser breve
-adeus.
V
antes e depois da ave
de nós
que resta sobre o céu?
VI
por ti troquei o mar.
antes me houvesse perdido
e de mim
jamais soubesses.
VII
navegar
vagar vagar
suspiros em terra
o barco no mar
O PEIXE PRATEADO
I
imagine-se um peixe simples
tocado pela água e pela luz.
imagine-se o seu movimento
a sua cor a sua voz
“procuro o meu nome o lugar
onde toda a água se desfaz”. é
um peixe tocado pelo espírito
amador da luz em seu corpo
prata.
pelo poema iluminado peixe.
II
tome-se o peixe e sua cor.
prateado.
tome-se o seu voo deslizante.
os olhos, as escamas, ainda a
sua voz.
“solidão é um nome junto a mim.
assalta-me o desejo e eu digo
… a tua boca …”
é agora um peixe descoberto pelo corpo.
insustentável em sua cor negra.
III
uma vez mais olharás o peixe.
não se pode contemplar
tão branca leveza e ficar
impune. beijarás o peixe na boca
colarás a sua respiração à tua. tua
será a morte do peixe, dirás.
“fui beijado pelo mais antigo
secreto e puro oiro.”
uma última vez o verás, agora
em sua cor invisível.
eis-te tocado pelo peixe.
pela água e pela luz.
outra estrada principia onde
outra estrada principia onde
esta termina.
a luz principia no centro
da noite. dizem alguns
quando uma luz finda logo
outra inicia.
todas estas obras as miragens
(d)os homens as construíram.
que outra luz haverá senão
a miragem?
poeta é pedra
poeta é pedra
homem árvore céu
poeta é vento
água fumo nada.
que dizer de um marinheiro
que dizer de um marinheiro
de um barco fendido pelas águas
fendido pela força da luz?
que dizer sobretudo das águas
de um barco nas zonas feridas da memória
nas horas tempestuosas do sono?
que dizer afinal dos barcos
do peso da noite sobre a proa
do peso dos barcos sobre mim
do peso da dor nestas viagens?
REFRÃO
já toda a luz se faz escura
só uma réstia ainda dura.
são homens, às vezes dóceis
são homens, às vezes dóceis,
às vezes duros.
são homens, os mesmos, às vezes
incapazes do ódio, às vezes
incapazes do amor. Fracos,
fortes, estremecem, riem,
capazes do deslumbre,
capazes da faca.
são homens, os mesmos, às vezes
choram, às vezes batem, às vezes
amam.
às vezes homens. às vezes tantos
cada um.
SOBRE A SERENA SOLIDÃO
o teu cheiro continua desconhecido
nesta casa. ainda não gastaste nenhum
sabonete não sujaste
os lençóis os cinzeiros
a loiça.
eu cá continuo mas
vou sendo o ainda sem ti.
não me preocupo porque
a bem da própria harmonia universal
tudo se há-de resolver.
o poema aqui o tens
contudo.
amenas noites de Abril
amenas noites de abril.
o pirilampo veste-se de fósforo intermitente
o sino toca o morcego rodopia
tornado visível pela luz. eu
quereria oferecer-te este precioso momento
a improvável simultaneidade destas coisas.
a poesia é uma arte difícil meu amor.
trata-se de esconder o gato
deixando cuidadosamente a cauda
de fora.
palavra por palavra
como num jogo a dois
introduzo elementos
desvendo segredos
escureço a luz
aclaro sombras
convoco barcos
escolho matizes
digo meu amor em vez de
meu amor. sabes
a poesia é uma arte circular.
trata-se de descobrir pacientemente o gato
escondendo cuidadosamente a cauda.
o mar por trás da papoila volátil
o mar por trás da papoila volátil.
que tempestades no interior da nossa
imensidão?
digamos: a nossa liberdade é uma regra
precisa como as marés.
digamos: somos o mar
abrigamos peixes barcos marinheiros.
é no interior da nossa imensidão
que o mar por vezes naufraga.
“M”
cavalete tela pincéis cores
que o mundo aqui se apresente.
quero pintá-lo. só tu
não precisas vir, mãe,
deixa-te ficar, cuida das begónias.
eu saberei pintar-te de memória.
pedra sobre pedra, de pedra ergui os bancos
pedra sobre pedra, de pedra ergui os bancos,
a mesa, a lareira. a mais rasa laje em frente
ao lugar da porta era o meu lugar na casa.
dali eu contemplava os barcos, o mar, o voo das
aves.
nove meses – outono, inverno, o tempo das flores,
permaneci. três ou quatro meses uma osga
hibernou sobre o meu leito. no quarto em frente
uma cobra vivia tranquila. conheci as pedras
debaixo das quais viviam pequenos escorpiões quase
negro. às vezes levava-lhes insectos moscas mortas.
espalhava grãos pelo pátio e chamava os pássaros.
o mundo não sei. eu renasci.
“T.T”
falo de uma casa como as casas são
no sul: branca, pequena, térrea,
a ver o mar.
as outras têm porta. aquela não.
falo de um lugar e de um exílio
da morte do mais querido amigo.
naquela casa eu prometia a mim
mesmo o renascimento do mundo. saborosa
ingenuidade.
vens vestida de brando nas águas que desvendo
vens vestida de brando nas águas que desvendo.
trazes uma chama na alma, uma estrela vermelha.
a semente incandescende talhada dentro de ti aberta nos olhos.
por vezes assaltas as praias com teus jogos macabros,
tuas foices, teus perfumes, teus dedos agudos.
eu sou os “teus” jogos macabros e tu,
tu ris-te mansinho num canto tardio.
é quando vens vestida de tempo. eu entranço
uma corda de esperas, tu agachas-te debaixo da garganta
como um cravo negro direito ao coração.
tenho só de merecer-te lentamente
aprender-te sempre até não haver mais tu
nem eu, e nós somos imortais, sabemos.
fico a inventar-te e não habito
o espaço da tua ausência.
vão partindo e chegando comboios através do horizonte.
1981
poesia sobrevivente 1978/1987
sem título
I
de todos os homens que fui
de todos os destinos
que compuseram o meu destino
a memória de um sonho
fortemente persiste.
II
não é fácil falar do ouro ou
da inexplicada serpente
cuja raiz
toca a solidão de cada homem.
há, nas noites de lua cheia,
há, nas noites de lua cheia,
no verão, nas cidades à beira mar,
na embriagada felicidade alheia,
uma dor, um certo azul, um gume,
que tudo faz por se desatar.
depois penso em ti, leila,
e em ti sílvia e helga e mafalda.
passámos ao lado. a verdade, ei-la:
era um rio que corria sem desaguar
era água que não queria ser mar.
18 DE MARÇO DE 1985
I
desalinhados cabelos
tranquilo rosto
serena bela cabeça
de homem.
o que me dói
por dentro a rói.
II
que fazer agora
quando por dentro
o fogo te consome?
altivo porte
o das águas do teu rosto.
III
dia após dia
noite após noite
me recolhi.
águas semanas meses
não sei quantos.
já podes vir.
IV
a acção das mãos
a finitude das coisas humanas
o amor e o afago
a negra sabedoria
de ser breve
-adeus.
V
antes e depois da ave
de nós
que resta sobre o céu?
VI
por ti troquei o mar.
antes me houvesse perdido
e de mim
jamais soubesses.
VII
navegar
vagar vagar
suspiros em terra
o barco no mar
O PEIXE PRATEADO
I
imagine-se um peixe simples
tocado pela água e pela luz.
imagine-se o seu movimento
a sua cor a sua voz
“procuro o meu nome o lugar
onde toda a água se desfaz”. é
um peixe tocado pelo espírito
amador da luz em seu corpo
prata.
pelo poema iluminado peixe.
II
tome-se o peixe e sua cor.
prateado.
tome-se o seu voo deslizante.
os olhos, as escamas, ainda a
sua voz.
“solidão é um nome junto a mim.
assalta-me o desejo e eu digo
… a tua boca …”
é agora um peixe descoberto pelo corpo.
insustentável em sua cor negra.
III
uma vez mais olharás o peixe.
não se pode contemplar
tão branca leveza e ficar
impune. beijarás o peixe na boca
colarás a sua respiração à tua. tua
será a morte do peixe, dirás.
“fui beijado pelo mais antigo
secreto e puro oiro.”
uma última vez o verás, agora
em sua cor invisível.
eis-te tocado pelo peixe.
pela água e pela luz.
outra estrada principia onde
outra estrada principia onde
esta termina.
a luz principia no centro
da noite. dizem alguns
quando uma luz finda logo
outra inicia.
todas estas obras as miragens
(d)os homens as construíram.
que outra luz haverá senão
a miragem?
poeta é pedra
poeta é pedra
homem árvore céu
poeta é vento
água fumo nada.
que dizer de um marinheiro
que dizer de um marinheiro
de um barco fendido pelas águas
fendido pela força da luz?
que dizer sobretudo das águas
de um barco nas zonas feridas da memória
nas horas tempestuosas do sono?
que dizer afinal dos barcos
do peso da noite sobre a proa
do peso dos barcos sobre mim
do peso da dor nestas viagens?
REFRÃO
já toda a luz se faz escura
só uma réstia ainda dura.
são homens, às vezes dóceis
são homens, às vezes dóceis,
às vezes duros.
são homens, os mesmos, às vezes
incapazes do ódio, às vezes
incapazes do amor. Fracos,
fortes, estremecem, riem,
capazes do deslumbre,
capazes da faca.
são homens, os mesmos, às vezes
choram, às vezes batem, às vezes
amam.
às vezes homens. às vezes tantos
cada um.
SOBRE A SERENA SOLIDÃO
o teu cheiro continua desconhecido
nesta casa. ainda não gastaste nenhum
sabonete não sujaste
os lençóis os cinzeiros
a loiça.
eu cá continuo mas
vou sendo o ainda sem ti.
não me preocupo porque
a bem da própria harmonia universal
tudo se há-de resolver.
o poema aqui o tens
contudo.
amenas noites de Abril
amenas noites de abril.
o pirilampo veste-se de fósforo intermitente
o sino toca o morcego rodopia
tornado visível pela luz. eu
quereria oferecer-te este precioso momento
a improvável simultaneidade destas coisas.
a poesia é uma arte difícil meu amor.
trata-se de esconder o gato
deixando cuidadosamente a cauda
de fora.
palavra por palavra
como num jogo a dois
introduzo elementos
desvendo segredos
escureço a luz
aclaro sombras
convoco barcos
escolho matizes
digo meu amor em vez de
meu amor. sabes
a poesia é uma arte circular.
trata-se de descobrir pacientemente o gato
escondendo cuidadosamente a cauda.
o mar por trás da papoila volátil
o mar por trás da papoila volátil.
que tempestades no interior da nossa
imensidão?
digamos: a nossa liberdade é uma regra
precisa como as marés.
digamos: somos o mar
abrigamos peixes barcos marinheiros.
é no interior da nossa imensidão
que o mar por vezes naufraga.
“M”
cavalete tela pincéis cores
que o mundo aqui se apresente.
quero pintá-lo. só tu
não precisas vir, mãe,
deixa-te ficar, cuida das begónias.
eu saberei pintar-te de memória.
pedra sobre pedra, de pedra ergui os bancos
pedra sobre pedra, de pedra ergui os bancos,
a mesa, a lareira. a mais rasa laje em frente
ao lugar da porta era o meu lugar na casa.
dali eu contemplava os barcos, o mar, o voo das
aves.
nove meses – outono, inverno, o tempo das flores,
permaneci. três ou quatro meses uma osga
hibernou sobre o meu leito. no quarto em frente
uma cobra vivia tranquila. conheci as pedras
debaixo das quais viviam pequenos escorpiões quase
negro. às vezes levava-lhes insectos moscas mortas.
espalhava grãos pelo pátio e chamava os pássaros.
o mundo não sei. eu renasci.
“T.T”
falo de uma casa como as casas são
no sul: branca, pequena, térrea,
a ver o mar.
as outras têm porta. aquela não.
falo de um lugar e de um exílio
da morte do mais querido amigo.
naquela casa eu prometia a mim
mesmo o renascimento do mundo. saborosa
ingenuidade.
vens vestida de brando nas águas que desvendo
vens vestida de brando nas águas que desvendo.
trazes uma chama na alma, uma estrela vermelha.
a semente incandescende talhada dentro de ti aberta nos olhos.
por vezes assaltas as praias com teus jogos macabros,
tuas foices, teus perfumes, teus dedos agudos.
eu sou os “teus” jogos macabros e tu,
tu ris-te mansinho num canto tardio.
é quando vens vestida de tempo. eu entranço
uma corda de esperas, tu agachas-te debaixo da garganta
como um cravo negro direito ao coração.
tenho só de merecer-te lentamente
aprender-te sempre até não haver mais tu
nem eu, e nós somos imortais, sabemos.
fico a inventar-te e não habito
o espaço da tua ausência.
vão partindo e chegando comboios através do horizonte.
1981
Sexta-feira
.
era uma cidade ateada pelo branco
era uma cidade ateada pelo branco.
tu praticavas a leveza de ser bela
e jovem e rejuvenescias a cada dia,
dir-se-ia. não se trata aqui poesia.
suponhamos que voavas. voavas
e perdias-te em todas as direcções,
como as crianças. havia nisso alma,
quero dizer, havia nisso um ar, uma
candura, uma certa dose de malícia.
ateavas de brando a cidade ao passar
e praticavas a beleza de ser leve.
praticavas (e isso eu não podia saber)
a inesperada beleza de ser breve.
dá-me a tua lua peixe prata
dá-me a tua lua peixe prata
seio vivo sono regaço
é teu afluente meu rio de sangue.
dá-me a lua na boca peixe
espada de prata
raio de calor apontado ao frio.
abre-me o corpo em rosa vasta
flor antiga e aquece-me
punhal de gelo na lonjura
largura das noites sós.
1981
longos uivos de mulher em bandos
longos uivos de mulher em bandos
à noite no meu sangue.
eu carregando as minhas pedras
viajando no mar dentro delas
já não espero.
mas acordam-me por passos
os cães ladrando, cantando à lua.
1981
os dias que passam são rasos e
os dias que passam são rasos e
estéreis.
o inverno arde rigoroso.
não chovem ainda peixes mas água
água líquida.
os corpos refugiam-se para dentro
circunflexos.
os peixes preparam o nascimento
na fertilidade destas chuvas.
os barcos encolhem-se no cais.
os meus dias seguem-se rasos e
estéreis.
passei a usar chapéu ao jantar
passei a usar chapéu ao jantar
desde que te foste embora. acendo
sempre uma vela e falo
comigo.
é difícil ser português e ter corpo.
já o sabia bem o sei agora.
é difícil ter sexo. felizmente
dou-me menos mal. desde que
te foste embora passei a usar chapéu.
ao jantar acendo sempre uma vela.
de mão a mão
de mão a mão
imensa a fúria
funda a mansidão.
dois epitáfios
EPITÁFIO DO ATEU CONVERTIDO
NO LEITO DE MORTE
aqui jaz um homem
que viveu como quis
e deus matou.
EPITÁFIO DO MORTO FINGIDO
aqui jaz jorge addi.
amou odiou morreu.
mas sempre mentiu.
ao mar
ao mar
volta ao mar quando te perdes
a encontrar-te num tempo vasto e mutante
onde um esquecimento vago se dilui,
se vai diluindo no mar.
cantam-me as sereias dentro do sangue
lançando as redes, lembrando-me o sal.
1981
lágrimas em mares onde as palavras
lágrimas em mares onde as palavras
seriam barcos respirando, eu vi
a sorte dos ventos, a
partida adiada, a lua
amarrada ao porto.
ergui muros tijolo a tijolo de palavras.
dirias: tinhas os ouvidos cimentados.
respiro. a lua na ponta dos dedos
e já as palavras não servem.
diria: os teus primeiros olhos
atravessam-me como uma comoção violenta
e vou à fonte buscar água se queres,
beber sal, encher-me de maresia,
trazer o vento ao nosso suor.
ergui muros de palavras contra as lágrimas.
eram ocas de silêncio as palavras
e o silêncio devia habitar os barcos
lançados pelas tuas palavras em alto mar.
é nas noites em que a lua
se desenlaça dos meus braços que morro,
morro sempre um pouco por isso.
1981
um homem atravessa a europa
um homem atravessa a europa
com o coração aceso nas mãos
atravessa dezembro em direcção ao norte.
foge do amor como de um lugar maldito
que por dentro o invade.
o homem prefere não olhar para trás
para não ver o amor que por dentro
o persegue.
o homem atravessa dezembro
com uma mulher nas mãos vazias
atravessa o norte em direcção ao frio
foge do lugar com uma mulher
que por dentro o invade.
não olha para trás
para não ver a mulher que por dentro
o persegue.
o homem atravessa os lugares
como um maldito que o amor persegue
não olha para trás para não ver o coração
nas mãos da mulher que
o invade.
o homem foge da mulher que ama
para esquecê-la no frio
ao norte de dezembro.
sem título
I
não pressinto grandes alegrias
que não sejam bárbaras
nem inóspitas visões
nem novos muito novos sons.
ai, ainda hoje,
tão jovem que eu era.
II
eu, digo-te,
choro esta coisa sem nome
persigo-a sem forma
apal-
-po-a sem saber.
e perco-me,
é claro.
era uma cidade ateada pelo branco
era uma cidade ateada pelo branco.
tu praticavas a leveza de ser bela
e jovem e rejuvenescias a cada dia,
dir-se-ia. não se trata aqui poesia.
suponhamos que voavas. voavas
e perdias-te em todas as direcções,
como as crianças. havia nisso alma,
quero dizer, havia nisso um ar, uma
candura, uma certa dose de malícia.
ateavas de brando a cidade ao passar
e praticavas a beleza de ser leve.
praticavas (e isso eu não podia saber)
a inesperada beleza de ser breve.
dá-me a tua lua peixe prata
dá-me a tua lua peixe prata
seio vivo sono regaço
é teu afluente meu rio de sangue.
dá-me a lua na boca peixe
espada de prata
raio de calor apontado ao frio.
abre-me o corpo em rosa vasta
flor antiga e aquece-me
punhal de gelo na lonjura
largura das noites sós.
1981
longos uivos de mulher em bandos
longos uivos de mulher em bandos
à noite no meu sangue.
eu carregando as minhas pedras
viajando no mar dentro delas
já não espero.
mas acordam-me por passos
os cães ladrando, cantando à lua.
1981
os dias que passam são rasos e
os dias que passam são rasos e
estéreis.
o inverno arde rigoroso.
não chovem ainda peixes mas água
água líquida.
os corpos refugiam-se para dentro
circunflexos.
os peixes preparam o nascimento
na fertilidade destas chuvas.
os barcos encolhem-se no cais.
os meus dias seguem-se rasos e
estéreis.
passei a usar chapéu ao jantar
passei a usar chapéu ao jantar
desde que te foste embora. acendo
sempre uma vela e falo
comigo.
é difícil ser português e ter corpo.
já o sabia bem o sei agora.
é difícil ter sexo. felizmente
dou-me menos mal. desde que
te foste embora passei a usar chapéu.
ao jantar acendo sempre uma vela.
de mão a mão
de mão a mão
imensa a fúria
funda a mansidão.
dois epitáfios
EPITÁFIO DO ATEU CONVERTIDO
NO LEITO DE MORTE
aqui jaz um homem
que viveu como quis
e deus matou.
EPITÁFIO DO MORTO FINGIDO
aqui jaz jorge addi.
amou odiou morreu.
mas sempre mentiu.
ao mar
ao mar
volta ao mar quando te perdes
a encontrar-te num tempo vasto e mutante
onde um esquecimento vago se dilui,
se vai diluindo no mar.
cantam-me as sereias dentro do sangue
lançando as redes, lembrando-me o sal.
1981
lágrimas em mares onde as palavras
lágrimas em mares onde as palavras
seriam barcos respirando, eu vi
a sorte dos ventos, a
partida adiada, a lua
amarrada ao porto.
ergui muros tijolo a tijolo de palavras.
dirias: tinhas os ouvidos cimentados.
respiro. a lua na ponta dos dedos
e já as palavras não servem.
diria: os teus primeiros olhos
atravessam-me como uma comoção violenta
e vou à fonte buscar água se queres,
beber sal, encher-me de maresia,
trazer o vento ao nosso suor.
ergui muros de palavras contra as lágrimas.
eram ocas de silêncio as palavras
e o silêncio devia habitar os barcos
lançados pelas tuas palavras em alto mar.
é nas noites em que a lua
se desenlaça dos meus braços que morro,
morro sempre um pouco por isso.
1981
um homem atravessa a europa
um homem atravessa a europa
com o coração aceso nas mãos
atravessa dezembro em direcção ao norte.
foge do amor como de um lugar maldito
que por dentro o invade.
o homem prefere não olhar para trás
para não ver o amor que por dentro
o persegue.
o homem atravessa dezembro
com uma mulher nas mãos vazias
atravessa o norte em direcção ao frio
foge do lugar com uma mulher
que por dentro o invade.
não olha para trás
para não ver a mulher que por dentro
o persegue.
o homem atravessa os lugares
como um maldito que o amor persegue
não olha para trás para não ver o coração
nas mãos da mulher que
o invade.
o homem foge da mulher que ama
para esquecê-la no frio
ao norte de dezembro.
sem título
I
não pressinto grandes alegrias
que não sejam bárbaras
nem inóspitas visões
nem novos muito novos sons.
ai, ainda hoje,
tão jovem que eu era.
II
eu, digo-te,
choro esta coisa sem nome
persigo-a sem forma
apal-
-po-a sem saber.
e perco-me,
é claro.
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